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Aisha Não Pode Voar

  • 2 de mar.
  • 2 min de leitura

Quando fugir não é a melhor saída 

Por Isis Cruz


Em seu filme de estreia, o diretor Morad Mostafa foi reconhecido em Cannes e consagrado com o Grande Prêmio do Júri na Mostra de València. Todo esse mérito reflete a potência que seu trabalho apresentou ao mundo com Aisha Não Pode Voar.


O que acontece quando a solidão se torna a única coisa que você pode tocar e sentir? Aisha é uma imigrante sudanesa que viu no Egito a chance de uma vida melhor, longe das guerras civis de seu país. Porém, como ocorre com muitas mulheres ao redor do mundo, a determinação não basta para sobreviver em ruas que buscam apenas explorá-la.


A protagonista trabalha em uma agência informal que, externamente, finge auxiliar idosos em tarefas diárias. Na realidade, a organização utiliza pessoas em situações vulneráveis — tanto quem ajuda quanto quem necessita — para manter vivo um esquema criminoso que alicia aqueles que não têm mais a que se apegar. Aisha vê-se encurralada em uma existência que não é tratada como humana, mas como moeda de troca: seja por seus serviços, seu corpo ou suas necessidades básicas. O sistema sequestra qualquer otimismo que a vida em um novo país poderia oferecer.


Buliana Simona, que faz sua estreia como atriz, entrega uma personagem de poucas falas, cujas expressões e silêncios preenchem o espaço. Suas angústias não precisam de palavras; estão explícitas na forma como ela é obrigada a se posicionar para sobreviver. Entre o caos de sua jornada dolorosa, vemos a mente e o corpo de Aisha desmoronarem. Cansada do abuso e da brutalidade, ela passa por uma transformação de realismo fantástico: a cada dia, assemelha-se mais a um avestruz. A escolha desse animal, embora pareça peculiar, encaixa-se perfeitamente na narrativa: uma criatura que possui asas, mas não pode voar.


Para além de um relato sobre imigração, o filme desperta sentimentos que transcendem a empatia. É possível se emocionar com as fragmentações que uma mulher precisa enfrentar para manter sua humanidade. Um retrato potente que usa o surrealismo como artifício para contar uma história necessária, de uma forma que raramente vemos no cinema.



Aisha Não Pode Voar | Estreia 26.03.2026 | Dir. Morad Mostafa | Egito | Drama | 120 min.


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