A Terra de Meu Pai
Uma Alemanha entre dois mundos
Por Rebecca Rocatto
O cineasta polonês Paweł Pawlikowski venceu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2015 com Ida, sobre uma jovem noviça que descobre os fragmentos da história de sua família durante a Segunda Guerra Mundial. Três anos depois, ganhou o prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes por Guerra Fria. Mais uma vez, retornou ao festival, agora com A Terra do Meu Pai, selecionado para a Competição Oficial de 2026 e vencedor novamente de Melhor Direção.
Filmado em preto e branco e protagonizado por Sandra Hüller (Anatomia de uma Queda), Hanns Zischler e August Diehl, o longa é ambientado em 1949 e acompanha Thomas Mann, escritor vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1929, durante uma viagem à Alemanha Ocidental. Depois de anos vivendo nos Estados Unidos, o autor retorna a um país ainda dividido pelas consequências da guerra. Erika, sua filha, o acompanha e recebe uma ligação de seu irmão Klaus, também escritor, que está vivendo na França e atravessa um momento de profunda desilusão. Os dois são muito próximos, e a conversa deixa evidente a fragilidade do jovem autor e sua dificuldade de encontrar um lugar para sua literatura naquele novo cenário político e cultural. Klaus Mann era um escritor antifascista e, durante o período nazista, viveu no exílio. Seu romance Mephisto, publicado em 1936, foi proibido na Alemanha nazista e só seria publicado no país décadas depois.
O país, então dividido entre Ocidental e Oriental, vivia o início da Guerra Fria. Thomas Mann, o pai, havia se estabelecido nos Estados Unidos e se tornou uma das vozes mais ativas contra o nazismo durante as décadas de 1930 e 1940. No filme, ele é informado de que receberá um segundo Prêmio Goethe, em Weimar. A notícia provoca questionamentos dos jornalistas sobre as possíveis consequências de seu retorno para sua vida pessoal e profissional nos Estados Unidos. O célebre escritor responde que a arte não reconhece fronteiras.
A relação de Pawlikowski com períodos marcados pela guerra e pela divisão política já vinha de seus trabalhos anteriores. Ida abordava as marcas da Segunda Guerra Mundial na Polônia, enquanto Guerra Fria acompanhava um casal separado pelas tensões políticas e ideológicas da Europa.
Toda a produção foi filmada na Polônia. Por uma questão orçamentária, Pawlikowski e sua equipe aproveitaram ruas e edifícios existentes, criando cenários que pudessem reproduzir a Alemanha do período. A direção de arte trabalha em conjunto com o figurino de Aleksandra Staszko para marcar as diferenças entre os dois lados do país dividido.
Com apenas 82 minutos, A Terra do Meu Pai compõe um retrato a partir de encontros, conversas e conflitos familiares, tendo como pano de fundo um país que tentava se reconstruir enquanto o mundo entrava em uma nova disputa política. Entre conferências, festas e encontros privados, Thomas Mann se vê diante de uma realidade que já não era a mesma que havia deixado. A literatura e a arte aparecem no centro dessas discussões, ao lado das escolhas pessoais de um homem que precisava decidir qual lugar ocupar naquele novo cenário.
Confira o trailer
Estreia 29.10.2026 | Dir. Paweł Pawlikowski | Polônia/Alemanha/Itália/França | Drama/Biografia | 82 min.




Comentários