I Want Your Sex
O tesão como resistência
Por Isis Cruz
Nos últimos anos, uma onda de questionamentos sobre a necessidade de cenas de sexo no cinema ganhou força na internet, levantando dúvidas sobre o lugar da intimidade e da vulnerabilidade nas produções atuais. Até que ponto esse debate pode levar a um cinema cada vez mais cauteloso diante do sexo e da exposição dos corpos? É nesse contexto que Gregg Araki retorna às telas depois de mais de uma década sem lançar um longa, com I Want Your Sex, uma comédia provocadora sobre desejo, poder e as diferentes formas de encarar a sexualidade.
A história acompanha Elliot, interpretado por Cooper Hoffman, um jovem recém-saído da faculdade e sem muitas perspectivas para o futuro, que consegue um emprego na galeria de arte de Erika Tracy, vivida por Olivia Wilde. Artista provocadora e sem papas na língua, Erika não esconde seus desejos e transforma o novo funcionário em sua musa sexual. Quando os dois se aproximam, a relação profissional dá lugar a um jogo de sedução e poder, em que constrangimento, desejo e liberdade sexual ganham espaço para o humor.
Com os papéis de gênero invertidos em relação ao roteiro original, escrito por Araki há dez anos e agora coassinado por Karley Sciortino, o longa explora uma dinâmica de poder conhecida do cinema, mas sob uma perspectiva ligada às mudanças na forma como diferentes faixas etárias encaram sexo, intimidade e vulnerabilidade. A provocação não está apenas nas cenas de sexo, mas também na dificuldade dos personagens em estabelecer seus próprios limites e entender os desejos uns dos outros.
Charli XCX interpreta Minerva, uma personagem apática cuja postura rígida contrasta com a liberdade de Erika, enquanto Chase Sui Wonders vive Apple, colega de quarto de Elliot. As duas ajudam a apresentar visões distintas sobre sexo e relacionamentos, enquanto o roteiro brinca com as expectativas que cercam a vida afetiva contemporânea. A presença de artistas de idades e trajetórias diferentes também amplia o diálogo proposto pela história.
Conhecido por uma filmografia marcada por personagens jovens, sexualidade, cultura pop e relações que escapam aos padrões convencionais, o cineasta construiu uma trajetória que atravessa diferentes momentos e linguagens. Ele próprio definiu o filme como uma espécie de carta de amor à positividade sexual da Geração Z.
A estreia mundial aconteceu no Festival de Sundance, em janeiro.Foi a 11ª vez que um longa de Araki chegou ao festival, que também recebeu The Living End, The Doom Generation e Mistérios da Carne.
Com filmes já declarados cult, o diretor se reafirma mais uma vez como uma voz essencial, cuja relevância se faz jus. Ficamos sempre querendo ver mais dele a cada ano que passa, e seus trabalhos evoluem para se tornarem um retrato do tempo em que foram feitos, com o poder de fazer uma geração que tanto o idolatra repensar a maneira como está vivendo.
O filme, para além da comédia ácida, garante sua provocação à moral e aos bons costumes, inclusive para as audiências mais passivas e apáticas.
Confira o trailer
I Want Your Sex | Estreia 22.10.2026 Dir. Gregg Araki | Estados Unidos | Comédia | 90 min.




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