Meu Verão na Sicília
Entre fantasmas e segredos escondidos
Por Gabriel Sargaço
Há uma idade em que o verão parece não ter fim. Os dias são longos, as tardes parecem durar uma eternidade e um lugar desconhecido pode se transformar em um universo inteiro. É nesse período que a diretora Margherita Spampinato coloca Nico, um garoto acostumado a um mundo conectado, para passar uma temporada na Sicília, na companhia de Gela, sua tia-avó. O que a princípio parece um castigo logo se transforma em uma experiência que muda sua maneira de enxergar a vida.
Meu Verão na Sicília acompanha a convivência entre os dois no apartamento de Gela, em um prédio antigo, cercado por móveis e objetos que parecem ter parado no tempo. Sem Wi-Fi e distante de quase tudo que faz parte de sua rotina, o garoto se depara com espíritos, sinais e crenças que aquela senhora encara com a maior naturalidade. Para ele, aquilo é estranho. Para ela, faz parte da maneira como sempre enxergou a vida. O choque entre os dois provoca situações engraçadas, mas também revela uma melancolia compartilhada. O menino sente a falta de alguém que marcou sua infância. Gela, por sua vez, guarda uma história de amor que nunca pôde ser vivida como gostaria e que continua ecoando entre aquelas paredes.
Entre brigas, brincadeiras e silêncios, os dois encontram uma maneira de se aproximar que não depende necessariamente das palavras. O garoto também conhece vizinhos de sua idade, que servem de ponte para uma realidade que, até então, lhe parecia distante. Com eles, começa a descobrir histórias, rituais e crenças populares que fazem parte do cotidiano daquela comunidade.
O filme aproxima duas gerações sem transformar essa diferença em uma disputa entre o velho e o novo. Há uma distância enorme entre os mais jovens e os idosos, entre fé e razão e entre diferentes maneiras de interpretar o que acontece ao redor, mas também uma curiosidade mútua. O misticismo acrescenta uma dose de incerteza à narrativa, e nunca sabemos muito bem se estamos diante de uma crença, de uma brincadeira ou de algo que realmente pode estar acontecendo.
A Sicília de Spampinato parece existir entre a lembrança e o sonho. As construções antigas, o calor, os rituais religiosos, histórias de espíritos e antigas paixões dão ao filme uma atmosfera quase mágica, sem transformar a região em uma Sicília de cartão-postal, mas naquela que pode existir na memória de quem passou parte da infância ali. Essa proximidade com a memória também tem uma origem pessoal. O filme parte das experiências da diretora, que passou parte da infância na ilha durante as férias de verão.
Gela ganha ainda mais força na interpretação de Aurora Quattrocchi, que constrói uma personagem rígida, misteriosa, engraçada e cheia de contradições, revelando aos poucos a fragilidade por trás dessa dureza. A atriz recebeu o Leopardo de Melhor Atuação em Locarno, onde o filme também ganhou o Prêmio Especial do Júri CINÉ+, na seção Cineasti del Presente. Marco Fiore também se destaca como Nico, com uma atuação delicada e natural.
Meu Verão na Sicília transforma o encontro entre duas gerações em uma pequena aventura, feita de descobertas, afetos e perdas. O filme termina deixando a impressão de que acabamos de voltar de algum lugar que nos marcou para sempre.
Confira o trailer
Estreia 22.10.2026 | Dir. Margherita Spampinato | Itália | Drama | 90min.




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