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Natal Amargo

  • há 19 horas
  • 2 min de leitura

Almodóvar frente ao espelho

Por Amanda Aguiar


"O amor é simples. E as coisas simples são devoradas pelo tempo". Em uma das cenas mais memoráveis de Natal Amargo, novo longa de Pedro Almodóvar, a cantora e atriz Amaia Romero entoa, com emoção, versos imortalizados na voz de Mercedes Sosa — em uma referência sutil, mas clara, à crescente melancolia presente na obra do diretor.


No longa, que chega aos cinemas brasileiros em 28 de maio, o espanhol está novamente diante do espelho: o protagonista é um cineasta em crise, Raúl Durán (Leonardo Sbaraglia, com seu extravagante cabelo branco volumoso, que tanto remete ao visual de Almodóvar), que enfrenta um bloqueio criativo em meio a um luto prolongado. Na trama, a vida pessoal e a obra artística de Raúl se misturam de forma indissociável, escancarando a dificuldade de separar realidade e ficção. Ele é o parceiro de Elsa (Bárbara Lennie), que lida com a perda da mãe em pleno período de festas de fim de ano.


“Eu queria abalar um pouco a figura totêmica de um diretor, mostrando suas fraquezas e falhas, mas sem abusar delas — e sim questionando se ele tem realmente o direito de fazer tudo o que faz”, disse Almodóvar em uma coletiva de imprensa antes da estreia na Espanha. “Natal Amargo é o filme em que fui mais cruel comigo mesmo”, completou.


A paleta de tons intensos, os blocos de cores únicas, os enquadramentos perfeitamente compostos. Os cenários deslumbrantes — como um chalé em Lanzarote, nas Ilhas Canárias. Os olhares tão eloquentes que, por vezes, dispensam a palavra. O drama. Em uma estrutura de filme dentro do filme, com foco no próprio processo criativo, Natal Amargo marca um retorno de Almodóvar às origens, após O Quarto ao Lado, estrelado por Tilda Swinton e Julianne Moore, inteiramente falado em inglês.


“Almodóvar entrega seu filme mais profundo e complexo, em um estudo muito cruel dos motivos por trás da criação”, destacou o Le Monde. Diante de uma plateia lotada de estudantes no Centro Pompidou — que exibe uma retrospectiva de sua obra até o dia 26 de maio —, o diretor falou sobre essa “crueldade” recorrente, passeando pelas histórias traumáticas que atravessam sua filmografia e afirmando a melancolia como motor incontornável de criação. “Fazer cinema sempre foi, para mim, uma grande festa: me sinto como um pintor, um artista plástico. Mas, sinceramente? Eu não saberia contar uma história sobre pessoas absolutamente felizes”.


Confira o trailer



Natal Amargo | Estreia 28.05.2026 | Dir. Pedro Almodóvar | Espanha | Drama | 111 min.

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