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Por Um Destino Insólito

O naufrágio das boas maneiras

Por Léo Mendes


Lançado originalmente em 1974, Por Um Destino Insólito (Travolti da un insolito destino nell’azzurro mare d’agosto) volta às telas em versão restaurada, celebrando os 50 anos de um dos filmes mais provocadores e controversos do cinema italiano. Dirigido por Lina Wertmüller, o longa reúne Giancarlo Giannini e Mariangela Melato, nos papéis de Gennarino e Raffaella, em um duelo feroz de classe, gênero e poder, embalado por humor ácido, erotismo e um desconforto permanente que atravessa toda a narrativa. A história começa como uma sátira social durante um cruzeiro de luxo e se transforma radicalmente quando os dois personagens ficam isolados em uma ilha deserta, longe das convenções e das hierarquias que os protegiam.


O choque entre a burguesa autoritária e o marinheiro comunista vira um jogo cruel de inversões e sadomasoquismo, no qual as relações de dominação se reorganizam de forma extrema e perturbadora. Sem oferecer saídas morais fáceis, Wertmüller expõe tanto a violência simbólica da elite quanto as fantasias de poder que emergem quando as estruturas sociais desmoronam.


A relação entre Raffaella e Gennarino vai além de um conflito pessoal e reflete, de forma metafórica e quase caricata, as tensões de classe e políticas da Itália da época. A ilha, no caso, não é um refúgio, mas um espaço onde as regras sociais se distorcem e a violência vira linguagem. Quando a dinâmica de poder se transforma em desejo, a diretora, que foi duramente acusada de propagar misoginia, deixa de falar apenas de sobrevivência e passa a encarar algo mais incômodo: a ideia de que, em um mundo estruturado pela desigualdade, até o amor pode nascer contaminado. O romance que surge ali não é libertador, é estranho, torto — mais sintoma de uma relação de posse do que qualquer forma real de afeto. 


Primeira mulher indicada ao Oscar de Melhor Direção, a cineasta filma o embate com ironia e uma liberdade rara para a época, misturando comédia, drama político e provocação sexual em uma mesma linguagem.


Giannini e Melato, que formaram uma das parcerias mais emblemáticas do cinema europeu dos anos 1970, alcançam aqui um nível de intensidade difícil de repetir, sustentando o filme quase inteiramente no confronto físico e verbal entre seus personagens. Curiosamente, Wertmüller escreveu o roteiro pensando especificamente nos dois atores, explorando a química e a tensão que já havia testado em trabalhos anteriores. O filme foi um grande sucesso internacional, gerou debates acalorados sobre misoginia e política e ainda ganhou um remake americano em 2002, dirigido por Guy Ritchie e estrelado por Madonna, hoje amplamente considerado inferior ao original.


A restauração recupera cores, texturas e o ritmo preciso da montagem original, valorizando também a trilha sonora de Piero Piccioni e a fotografia solar que contrasta com a brutalidade das relações pessoais. Meio século depois, Por Um Destino Insólito segue incômodo, insano e perigosamente atual, reafirmando o lugar de Lina Wertmüller como uma das vozes mais radicais e singulares da história do cinema.



Por Um Destino Insólito | Estreia 12.02.2026 |Dir. Lina Wertmüller | Itália | Comédia/Drama | 114 min.

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