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Ran

há 1 dia
3 min de leitura

A volta triunfal de um épico feito de cores, som e fúria

Por Vivi Isoda


Grandiosa e arrebatadora, a obra-prima de Akira Kurosawa está de volta aos cinemas 40 anos após seu lançamento, e é um presente. O próprio diretor definiu Ran como “um ponto de partida para uma nova era” e afirmou: “É a película da minha vida”.

Ran (que significa caos, discórdia) é uma releitura de Rei Lear, de Shakespeare, ambientada no Japão do século XVI, mas também encontra inspiração na história do daimyo Mori Motonari, senhor feudal que teve três filhos. Uma das primeiras sequências faz alusão ao famoso ensinamento de Mori sobre as três flechas: sozinhas, são quebradas facilmente; juntas, são inquebráveis. É a imagem de uma união que Hidetora acredita poder preservar ao dividir seu reino entre os filhos.


Mas a ideia não dura muito. Interpretado por Tatsuya Nakadai, o cruel Hidetora conquistou diversas terras ao longo da vida e, já na velhice, decide entregar seu poder aos filhos Taro, Jiro e Saburo, os dois primeiros obedientes e o caçula rebelde. A decisão desencadeia uma sucessão de traições, disputas e vinganças, enquanto ambição, poder, inveja, luxúria e loucura tomam conta da família.


Kurosawa transforma essa história em um espetáculo visual de proporções impressionantes. Filmado aos pés do Monte Fuji, no Monte Aso, em Kyushu, nos Castelos de Himeji e Kumamoto, tesouros nacionais do Japão, e nas ruínas de Azushi, o longa reúne paisagens imensas, centenas de soldados, um castelo em chamas, flechas e sangue em uma composição cuidadosamente coreografada. Tudo isso foi realizado, claro, muito antes da era digital.


A atenção aos detalhes aparece também na escolha das cores associadas a cada filho, vermelho, amarelo e azul, nos enquadramentos, nas câmeras e nos storyboards desenhados à mão pelo próprio diretor. Os ensaios exaustivos e a preparação das cenas podem ser vistos no documentário A.K., de Chris Marker. Nas batalhas, Kurosawa transforma os movimentos dos exércitos em um verdadeiro balé, enquanto a maquiagem inspirada no teatro Nô acrescenta outra camada simbólica, especialmente a Hidetora, que vai se tornando cada vez mais fantasmagórico.


Esse cuidado ajuda a entender a dimensão da produção. Um dos filmes mais caros realizados no Japão até então, Ran teve orçamento estimado em US$ 11,5 milhões, 210 dias de filmagem, mais de 1.400 figurantes, 200 cavalos e cerca de 1.400 figurinos e armaduras. Três estruturas de castelos foram construídas, e apenas o que seria incendiado custou mais de US$ 1,5 milhão. A realização só foi possível com a ajuda do produtor Serge Silberman, que já havia trabalhado com Luis Buñuel, em um momento em que a popularidade de Kurosawa estava em baixa.


Entre os personagens, além dos três filhos, destacam-se Lady Kaede, esposa de Taro e uma das figuras mais calculistas da trama, e Kyoami, o bobo da corte que acompanha Hidetora em sua queda. É dele uma das frases mais memoráveis do filme: “Num mundo louco, só os loucos são sãos”. Kyoami é interpretado por Peter, artista que o próprio Kurosawa escolheu para o papel, e que ganhou fama como Eddie em O Funeral das Rosas.


Em 1986, Ran chegou ao Oscar com quatro indicações, incluindo Melhor Diretor, Fotografia, Direção de Arte e Figurino. Emi Wada venceu nesta última categoria, tornando-se a primeira japonesa a conquistar o Oscar nesse ofício. Quarenta anos depois, rever o filme na sala de cinema permite reencontrar toda a dimensão de uma obra que Kurosawa considerava tão importante em sua própria carreira. E depois, você poderá saborear novamente cada detalhe na tela de casa: Ran e A.K., fabuloso registro dos bastidores da produção, já estão disponíveis no streaming Belas Artes À La Carte.


Confira o trailer



Estreia 01.10.2026 | Dir. Akira Kurosawa | Japão/França | Drama Ação | 162 min.

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