Sirât
- Marina C. Alves
- há 3 horas
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O que pode restar quando se perde tudo?
Por Marina de Castro Alves
Sirât, de Oliver Laxe, é sem dúvida um dos filmes mais impactantes dos últimos tempos, um soco no estômago difícil de esquecer. Aclamado pela crítica, fez sua estreia mundial na última edição do Festival de Cannes, onde conquistou o Prêmio do Júri. Desde então, vem contabilizando muitos prêmios e indicações, como as três categorias que levou no recente European Film Awards (Som, Casting e Montagem) e as 11 indicações ao Goya, o Oscar espanhol.
Escolhido pela Espanha como seu representante no Oscar, Sirât concorre em duas modalidades na maior premiação do cinema: está entre os cinco indicados a Melhor Filme Internacional — em uma das temporadas mais acirradas que já vimos na categoria — e a Melhor Som. Esta indicação reconhece um de seus maiores méritos, já que a música é parte essencial do filme, que nos guia por uma jornada sensorial, inesquecível e surpreendente.
O filme tem início em uma rave no deserto do Marrocos. Ali acompanhamos a busca de pai e filho que procuram pela filha e irmã, Mar, desaparecida há alguns meses em uma dessas festas intermináveis. Eles mostram a foto dela a alguns frequentadores, que se unem a eles em um comboio que segue rumo à última festa, onde Mar (nome simbólico) poderia estar. O ambiente é o deserto: árido, vazio, coberto por areia, e preenchido pela música eletrônica, que aparece em momentos inusitados, vinda de caixas de som gigantes no meio do nada. Elas se assemelham aos monólitos de 2001 – Uma Odisseia no Espaço, de Kubrick (de novo, simbólico). À medida que a viagem avança, a esperança de pai e filho, e também do grupo, vai desaparecendo, até ser substituída pela luta por sobrevivência.
Há também indícios de uma guerra; pouco sabemos sobre ela, mas esse fato de pouco saber só faz com que a tensão — o outro fio condutor desta narrativa — nos deixe ainda mais apreensivos. Contar mais do que isso estragaria a experiência.
Outra qualidade de Sirât está em seu elenco. Oliver Laxe trabalhou com oficinas de atores e aceitou sugestões de participantes de raves. A escolha parece certeira: tanto a figuração quanto os personagens principais estão à vontade em cena. Sergi López, que interpreta o pai, é um dos poucos atores profissionais e comanda espetacularmente essa trajetória. Coloca todo seu sangue espanhol em cena, exibindo o desespero e a dramaticidade de um pai diante de seu maior medo.
Produzido pela El Deseo, dos irmãos Pedro e Agustín Almodóvar, Sirât promete não deixar nenhum espectador indiferente. É impossível não ser fisgado logo nos primeiros minutos por sua narrativa diferenciada (que revela muito pouco em palavras) e que nos conquista com som e imagens hipnotizantes. Além do visual, o filme impressiona também por sua análise da psique humana e pelo existencialismo que dá o tom: o que temos quando perdemos tudo? Sirât é uma experiência perfeita para ver na sala de cinema, com boa companhia e tempo pós-sessão para comentar todas as suas nuances e discuti-las horas a fio.
Confira o trailer
Sirât | Estreia 26.02.2026 | Dir. Oliver Laxe| Espanha/França | Drama | 115 min.







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