São Paulo Sociedade Anônima
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Retrato de uma metrópole em transição
Por Marina de Castro Alves
“Onde já se viu? Cada porta é um apartamento. Se é que se pode chamar assim uma coisa dessas. Tudo se comunica aqui dentro: barulho, briga, amor, palavrão, tristeza. É como se não existisse parede. É assim, Carlos, não tem nenhuma poesia nisso.” Nessa frase, Hilda, uma das namoradas de Carlos, resume sua angústia em estar de volta a São Paulo após a morte do marido, mas também faz uma analogia sobre o que é viver numa cidade grande.
Carlos e Hilda são personagens de São Paulo Sociedade Anônima (1965), clássico de Luiz Sérgio Person, que volta restaurado em 4K às salas de cinema, celebrando os 60 anos de seu lançamento. Uma ode de amor (e ódio) a São Paulo, o longa é um marco do Cinema Novo paulista e um retrato intenso da metrópole em plena industrialização. No filme, passeamos pela São Paulo dos anos 1950 e 1960, em belas imagens que retratam os imensos prédios da cidade, como o Edifício Altino Arantes, hoje Farol Santander, que foi por muito tempo o mais alto da cidade. Também vemos pontos clássicos, como o Parque do Ibirapuera, o Museu de Arte Moderna, o Viaduto do Chá, além de alguma natureza, como as represas próximas e as praias do litoral sul. Mas é no dia a dia que o filme se constrói: dentro dos apartamentos, restaurantes, festas e no trabalho na indústria em que Carlos atua.
Carlos é interpretado por Walmor Chagas, um galã no auge, com seus 34 anos. A história acompanha sua vida de jovem de classe média que, ao trabalhar na indústria automobilística, tenta dar sentido à própria vida em meio à engrenagem impessoal do progresso. Narrado em primeira pessoa e estruturado em fragmentos de memória, o filme expõe o desencanto de uma geração que vê o crescimento econômico caminhar junto à alienação e ao vazio existencial. Nele, São Paulo surge como personagem viva, moderna, caótica e desumanizadora, espelho de um país em transição. Com linguagem inovadora e crítica social aguda, São Paulo Sociedade Anônima permanece atual ao revelar o custo humano da busca incessante por desenvolvimento e status.
Hilda diz não haver poesia na vida, mas há — e sobra — nesta obra de Person. A cena noturna de Carlos se despedindo da cidade, entrecortada com Ewa Wilma (simplesmente maravilhosa) andando por uma fábrica, é cinema em forma de poesia! Recomeçar, recomeçar, recomeçar é o que a metrópole vai sempre pedir.
Confira o trailer
São Paulo Sociedade Anônima | Estreia 26.02.2026 | Dir. Luiz Sergio Person | Brasil | Drama | 107 min.





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