Tatame
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O combate que vai muito além do ringue
Por Marina de Castro Alves
Aplaudido de pé pelo público do 80º Festival de Cinema de Veneza, onde fez sua estreia mundial, Tatame chega aos cinemas brasileiros com grandes expectativas. Parte dessa curiosidade se deve ao fato de este ser o primeiro longa-metragem codirigido por um israelense — Guy Nattiv, vencedor do Oscar de curta-metragem por Skin (2018) — e uma iraniana, Zar Amir Ebrahimi, melhor atriz no Festival de Cannes por Holy Spider (2022).
Tatame foi filmado na Geórgia com muita discrição por seus diretores. Para que o projeto não fosse descoberto, eles se hospedaram em hotéis diferentes e só falavam em inglês quando estavam em lugares públicos. Tantos cuidados nas filmagens refletem a tensão que sentimos na obra: ela é o fio condutor deste drama esportivo e político, ambientado em um campeonato mundial de judô e inspirado em casos reais da geopolítica contemporânea.
No longa, acompanhamos Leila (Arienne Mandi), atleta iraniana que enfrenta um dilema político e moral: o regime de seu país exige que ela abandone a competição ou simule uma lesão para evitar um possível confronto com uma judoca israelense. Diante da recusa em sair da disputa, Leila, sua família e sua técnica — interpretada pela diretora Zar Amir Ebrahimi, uma ex-campeã que sofreu a mesma pressão — passam a ser perseguidas pelo governo do Irã.
O filme impressiona pela captação de som habilidosa e por uma câmera extremamente ágil, que nos coloca ao lado das atletas como se estivéssemos no tatame, escutando sua respiração e observando de perto a pressão de cada luta. Filmado em preto e branco, o longa transforma os combates em cenas de alta tensão cinematográfica, evitando o registro meramente documental de uma competição esportiva, como algumas obras acabam recaindo. Outro ponto alto é mostrar um Irã pouco visto nos últimos tempos no cinema.
As cenas da competição são intercaladas com as da família de Leila e algumas imagens em flashback da atleta com o marido. Aqui vemos uma mulher comum: liberta, independente, apoiada pelo companheiro, mãe dedicada, sensual em sua intimidade dentro de casa e sem o uso do véu.
Tatame articula com eficiência a tensão de uma competição esportiva com o suspense de um thriller político. Em tempos tristes de mais uma guerra na região, o filme mostra, de forma crua e real, como pessoas comuns se tornam vítimas dos jogos de poder de sistemas e governos autoritários. Um filme para ser visto no cinema — de preferência, com uma boa companhia para comentar no final.
Confira o trailer
Tatame | Estreia 02.04.2026 | Dir. Zar Amir Ebrahimi e Guy Nattiv | Geórgia/EUA/Reino Unido | Drama/Suspense | 105 min





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