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Gonzaguinha, da Maior Liberdade

  • há 3 horas
  • 2 min de leitura

O menino do Estácio que cantou o Brasil

Por João Martins


Antes de ser o compositor combativo que transformaria a própria música em instrumento de resistência, Gonzaguinha foi um menino do Estácio de Sá, criado entre as ruas e o movimento de um Rio de Janeiro que lhe ofereceu, desde cedo, uma escola a céu aberto. É por esse caminho que Susanna Lira conduz Gonzaguinha – Da Maior Liberdade, documentário que acaba de conquistar o Kikito de Melhor Longa-Metragem Documentário no Festival de Gramado, além do prêmio de Melhor Documentário Narrativo no Los Angeles Brazilian Film Festival.


Susanna Lira constrói esse percurso combinando imagens de arquivo, músicas, entrevistas e dramatizações interpretadas por André Dale, que já havia encarnado Gonzaguinha em Homem com H. O ator recria trechos de conversas concedidas pelo compositor ao jornal O Pasquim entre 1981 e 1990, permitindo que o próprio artista, décadas depois de sua morte, continue conduzindo parte da narrativa.


O filme também ilumina uma das relações mais complexas de sua vida: a história com Luiz Gonzaga. As dúvidas em torno da paternidade sempre acompanharam essa relação, mas o documentário encontra uma maneira particularmente bonita de abordá-la. Quando Gonzaguinha reconhece Luiz Gonzaga como uma “raiz de verdade”, o Rei do Baião responde: “Se eu sou a raiz, você é o fruto”. É também nas viagens pelas estradas, para além dos grandes centros, que Gonzaguinha encontra um Brasil onde o baião e o forró permaneciam vivos e compreende, de fato, a dimensão da obra do pai.


Sua trajetória artística foi marcada, sobretudo, pela postura combativa diante da ditadura militar. Mais de cinquenta de suas músicas foram censuradas, órgãos do governo o acusavam de “inflamar” a população contra o regime e até bombas chegaram a explodir em um de seus shows. Gonzaguinha tornou-se um dos símbolos da resistência artística e cultural daquele período, mas sua música nunca se limitou ao enfrentamento político. Havia nela uma tentativa permanente de fazer o público olhar para o país e reconhecer suas possibilidades de transformação.


Mais do que revisitar a trajetória de um dos maiores compositores da MPB, o filme recupera uma voz que aprendeu a transformar a experiência de um povo em música. E talvez seja por isso que Gonzaguinha continue tão atual: ao cantar sobre liberdade, nos lembrava que ela precisa ser defendida e, sobretudo, vivida.


Confira o trailer



Gonzaguinha, da Maior Liberdade | Estreia 03.09.2026 | Dir. Susanna Lira | Brasil | Documentário | 78 min.

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