O Estrangeiro
- há 22 horas
- 2 min de leitura
O vazio por trás da indiferença
Por Livia Bandeira
“Me ocorreu que, de alguma forma, eu passaria por mais um domingo, que minha mãe agora estava enterrada e que amanhã eu voltaria ao trabalho como sempre. Na verdade, nada na minha vida havia mudado.” É a partir dessa indiferença inquietante do protagonista Meursault que François Ozon revisita O Estrangeiro, de Albert Camus. Em vez de tratá-lo como peça encerrada no tempo, o diretor o observa como algo que continua em movimento, capaz de revelar novas tensões quando revisitamos seu contexto.
A sensação de deslocamento, a dificuldade de encontrar sentido nas regras que organizam o mundo, a impressão de estar vivendo os dias quase no automático: tudo isso aparece no filme com uma clareza silenciosa. De certa forma, a angústia que acompanha o personagem deixa de ser apenas dele e passa a ecoar como algo mais amplo, quase universal. No romance, Camus descreve um mundo em que o ser humano busca sentido, lógica e explicações, mas se depara apenas com o silêncio. É dessa fricção que nasce o absurdo. Meursault não tenta disfarçar esse vazio com discursos ou emoções esperadas; ele simplesmente existe, reagindo ao que acontece com uma honestidade seca. Essa percepção orienta as escolhas do diretor ao longo do filme.
Nesse processo, o trabalho do ator Benjamin Voisin ganha destaque. Há algo de muito preciso na parceria com Ozon: o ator encontra um equilíbrio delicado entre presença, apatia e mistério, construindo um Meursault que não se explica, mas que cresce diante do olhar da câmera. O filme, que concorreu ao Leão de Ouro no Festival de Veneza 2025, acompanha essa trajetória com uma mise-en-scène elegante e observadora. Ozon privilegia o tempo das cenas, o espaço e a atmosfera. Escolhas que fazem a história se expandir aos poucos, como se cada detalhe contribuísse para a construção desse desconforto que atravessa o filme.
Ao mesmo tempo, a obra evidencia o contexto colonial que envolve a história. Na Argélia dominada pela França, as tensões entre colonizadores e população local atravessam o ambiente e ajudam a compreender o mal-estar que cerca Meursault. Ozon deixa que esses elementos apareçam nos espaços, nos encontros e nas relações entre os personagens, lembrando que o gesto aparentemente isolado do protagonista também se inscreve em um mundo marcado por desigualdade e violência colonial.
A adaptação parece compreender algo essencial sobre o romance de Camus: algumas histórias continuam retornando porque ainda dialogam com o presente — e, quando um cineasta encontra um novo ângulo para elas, o clássico ganha nova vida na tela.
Confira o trailer
O Estrangeiro | Estreia 16.04.2026 | Dir. François Ozon | França | Drama | 120 min





Comentários