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Refém Por um Fio

  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Com a corda no pescoço

Por Léo Mendes


Gus Van Sant nunca foi um diretor de seguir caminhos previsíveis. Depois de revelar seu talento em produções independentes como Drugstore Cowboy e Garotos de Programa, conquistou Hollywood com Gênio Indomável, ganhou a Palma de Ouro em Cannes por Elefante, dirigiu a premiada cinebiografia Milk e, ao longo de toda a carreira, sempre demonstrou interesse por personagens complexos e histórias inspiradas em fatos reais. 

Não por acaso, volta agora a um caso que parecia destinado a ganhar uma versão para o cinema.


Refém por Um Fio recria o sequestro cometido por Tony Kiritsis, em Indianápolis, no dia 8 de fevereiro de 1977. Convencido de que havia sido enganado por uma empresa de financiamentos e perdido praticamente tudo o que possuía, ele invadiu o escritório do presidente da companhia e transformou o filho dele em refém usando um engenhoso mecanismo preso ao pescoço da vítima. 


Ligado a uma espingarda e ao pulso do próprio sequestrador, o dispositivo dispararia automaticamente caso ele soltasse o gatilho. A engenhoca ficou conhecida como dead man’s wire e praticamente impedia qualquer tentativa de resgate sem colocar a vida do refém em risco.


Depois de conquistar o público mundial como o assustador Pennywise em It e de protagonizar a mais recente refilmagem de Nosferatu, Bill Skarsgård assume aqui um personagem completamente diferente. 


Seu Tony Kiritsis alterna momentos de calma e explosões de desespero, tornando impossível prever sua próxima atitude. Ao seu lado estão Dacre Montgomery, revelado pela série Stranger Things; Colman Domingo, indicado ao Oscar por Rustin e também aclamado por Sing Sing; e ninguém menos que Al Pacino, interpretando M. L. Hall, o pai inconsequente do rapaz rendido. Curiosamente, mais de cinquenta anos depois de viver o inesquecível Sonny Wortzik em Um Dia de Cão, clássico baseado em outro sequestro real, Pacino volta a um universo que conhece como poucos.


À medida que as horas passam, o caso deixa de ser apenas um problema para a polícia. Emissoras de televisão interrompem a programação, repórteres se aglomeram diante do prédio e milhões de americanos acompanham cada novidade praticamente em tempo real. Kiritsis percebe rapidamente que também pode usar as câmeras a seu favor, transformando as negociações em um espetáculo acompanhado por todo o país.

A impecável recriação dos anos 1970 também passa pela música. Gus Van Sant reúne uma seleção de canções que ajudam a transportar o público para aquela época, com artistas como Roberta Flack, Donna Summer, Barry White, Gil Scott- Heron, Yes, B.J. Thomas, Labi Siffre e o brasileiro Eumir Deodato, além de outras faixas cuidadosamente escolhidas para reforçar o clima daqueles dias em que rádio e televisão ditavam o ritmo da vida americana.


O roteiro de Austin Kolodney nasceu com a colaboração dos documentaristas Alan Berry e Mark Enochs, responsáveis por Dead Man’s Line, documentário que investigou detalhadamente o caso e serviu como importante fonte de pesquisa para o filme. Antes da chegada de Gus Van Sant, o projeto passou pelas mãos de Werner Herzog e teria Nicolas Cage no papel de Tony Kiritsis, ideia que acabou sendo abandonada durante o desenvolvimento da produção.


Pouca gente ainda se lembra de Tony Kiritsis, mas seu crime continua sendo um dos episódios policiais mais curiosos da história dos Estados Unidos. Talvez porque reúna ingredientes que parecem saídos de um roteiro de ficção: um sequestro improvável, um dispositivo mortal criado pelo próprio criminoso, cobertura televisiva ao vivo e uma sucessão de acontecimentos tão inesperados que nem o melhor roteirista ousaria exagerar.


Confira o trailer



Refém por Um Fio | Estreia 20.08.2026 | Dir. Gus Van Sant | EUA | Suspense/Drama | 95 min.

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